15 anos de luta
Em 1989, tive um problema na perna direita. Após algumas pancadas jogando futebol e um acidente, foi diagnosticado que eu tinha um tumor benigno na região da panturrilha. Fiz a cirurgia para a retirada deste tumor e após seis meses outro tumor apareceu no mesmo local iniciando uma série de 11 tumores sucessivos no mesmo local que retirei em 11 cirurgias.
E a cada cirurgia, junto com cada tumor também era retirado mais um pedaço do músculo da panturrilha, porque essa era a causa do surgimento de novos tumores, a cada novo tumor que nascia ele enraizava no músculo e, mesmo removendo-o por completo, vestígios ficavam no músculo e causavam o crescimento de um novo tumor, até que os médicos decidiram retirar completamente o músculo, cortando bem além da região que estava afetada pelo tumor.
Após um ano, voltei a sentir fortes dores na perna e também perceber o movimento com limitações, ou seja, eu não esticava nem dobrava o joelho com naturalidade, o que exigia um esforço grande para fazer o movimento. Retornei ao médico e foi diagnosticado o décimo segundo tumor, também benigno, porém dessa vez ele estava envolto a artéria poplítea, que são as artérias que carregam o maior volume de sangue para os nossos membros e, caso haja a necessidade de remoção, o membro fica sem circulação sanguínea.
Após a 12ª cirurgia, os médicos constataram que o tumor estava enraizado dentro da artéria e que ela já estava inutilizada. Removeram a artéria da perna direita e extraíram a veia safena da perna esquerda para substituição. Esse transplante de artérias foi a fase mais crítica, porque qualquer problema poderia comprometer a irrigação sanguínea do membro. Ainda em observação no hospital o medo dos médicos se confirmou, tive trombose crônica na junção das veias onde foi realizado o transplante, e o sangue parava na coxa e não chegava ao meu pé direito que começou a ficar roxo e gelado.
Rapidamente fui levado ao centro cirúrgico para a 13ª cirurgia, onde os médicos decidiram tirar os pontos e fazer novos cortes na perna para que o sangue pudesse fluir evitando uma hemorragia. Após esses cortes o ferimento teve que fechar naturalmente, ou seja, sem pontos para não comprimir as veias ainda saudáveis. Neste dia, marcaram a amputação da minha perna direita. Falaram que se em 48 horas não houvesse recuperação sanguínea eu perderia a perna na altura da coxa. Nesse período fiquei em observação na UTI sob sedativos para manter o controle emocional e chegaram a tirar as medidas para a confecção da prótese de madeira.
Foi a primeira vez que clamei a Deus pela minha vida, mesmo sem ainda conhecê-Lo como conheço hoje.
Quando cessou o prazo para a amputação da perna os médicos me levaram para uma arteriografia, procedimento que mede o fluxo sanguíneo e a pressão dentro das veias. Concluíram que poderiam aguardar mais 24 horas sem a necessidade de amputar e sem a temida gangrena que comprometeria a minha vida.
Neste período extra de 24horas fui informado pela médica que desenvolvi uma circulação colateral. As veias que sobraram ligaram-se a novas veias criando uma circulação extra e o sangue estava de novo chegando a ponta dos meus dedos. (Sem nenhuma interferência cirúrgica para isso, mas sim pelo poder do Senhor Deus). A cada hora era descartada a necessidade da amputação, pois eu recuperava a irrigação sanguínea.
Saí do hospital após oito meses internado acreditando que o problema tinha cessado. Mas após 4 meses voltei a ter problemas não na perna, mas no pé, porque a falta de circulação de sangue por um certo período enfraqueceu o nervo responsável pelo movimento do pé e ele não se recuperou, até que perdi o movimento do tornozelo por completo. Com isso, comecei a pisar da forma errada pois não tinha controle sobre o movimento do pé e nem dos dedos. O meu pé estava entortando. Voltei à equipe de ortopedia da Santa Casa e após 45 sessões de fisioterapia, sem sucesso, informaram que eu perdi por completo o controle nervoso do pé e dos dedos e que era irreversível.
Como estava pisando de forma errada, só havia uma maneira de corrigir: Cirurgia. Quebraram o pé para a colocação de parafusos e pinos de titânio que não serão removidos. Até que os parafusos e pinos ficassem na posição correta passei por mais 6 cirurgias completando o ciclo das 19 que fiz no total.
Foi uma luta de 15 anos, de 1989 até 2004 quando tive a alta definitiva da equipe de ortopedia e vascular onde finalmente concluíram que não há mais nenhum risco tanto vascular quanto ortopédico que comprometa uma vida normal, porém fiquei com algumas seqüelas.
Não posso fazer plásticas das cicatrizes, pois como a circulação sanguínea é colateral e não foi executada nem planejada pelos médicos eles não se arriscam a fazer esta cirurgia porque falam que não sabem como estão dispostas as conexões das veias que possibilitaram minha recuperação.
Para Honra e Glória do nome Santo de Jesus Cristo. Amém.
Valdinei Costa – 11/09/08 |