A Reforma Protestante
A Reforma Protestante foi um movimento que teve início no século 16 com o objetivo de promover a reforma da Igreja Católica Romana, levando ao surgimento do protestantismo.
Ela suscitou as prerrogativas de nortear o ser humano, através da Graça Salvífica de Cristo, a uma interrelação saudável com o Criador, desencadeando a necessidade de buscarmos um diálogo pleno com Deus, sem a intermediação humana.
Contudo, a Reforma não esteve imune aos diversificados aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos da época. Ela acarretou mudanças e transformações durante um período de ebulição e cisões e representou uma ótica existencial, cujo ensejo pelo lucro recebia outorga da Graça Divina e a Igreja vigente perderia sua pujança monopolista.
Principais tópicos da Reforma
Conjuntura social e histórica da Europa no
período da Reforma Protestante
A Reforma Protestante constituiu-se como um marco no tocante aos acontecimentos que contribuíram para o período de transição do feudalismo para o capitalismo. Ela desencadeou um processo de ruptura da estrutura vertical/hierarquizada da Igreja Católica, que norteava as diretrizes políticas e sociais da época, levando a uma diversidade de religiões, como o luteranismo, calvinismo e anglicanismo.
As pilastras da reforma são oriundas da Idade Média, quando desenvolveram-se propostas e tentativas para restaurar a religião. O escopo dos precursores da Reforma já apresentava a necessidade de formar uma concordância do espírito religioso às demandas e aspirações da sociedade, erradicando as prevaricações praticadas pelos clérigos que perpetravam para ofuscar a Igreja, segundo a ótica dos fiéis. Logo, através desses movimentos designados “heréticos”, pode ser extraído um conjunto significativo de idéias que cristalizarão a substância do protestantismo na Idade Moderna.
Fatores que levaram à Reforma Protestante
Vários fatores contribuíram para que ocorresse a Reforma Protestante, ressaltando-se que os componentes que a implementaram nos países europeus o ciclo da reforma dependeram de aspectos históricos e sociais e do maior ou menor grau de polarização de cada um.
- Expansão ultramarina: sedimentou a burguesia européia interessada na reforma religiosa. Tal interesse era propenso em dissolver o arcabouço da moral econômica católica do preço justo, formada por Tomás de Aquino, que constituía um obstáculo ao desenvolvimento do comércio.
- Formação das burguesias nacionais: período caracterizado pelo surgimento dos Estados centralizados, cujos poderes outrora fragmentados, foram deslocados para um monarca. Desse modo, a autoridade real e a Igreja colidiram-se e seus interesses entraram em divergência, na medida em que a Igreja constituía fortemente um legitimador da autoridade real. Por outro lado, os dízimos, a comercialização de indulgência e de relíquias sagradas cerceavam os Estados de uma relevante possibilidade de usufruírem das rendas oriundas dos impostos e outras formas de cobrança, concedida para o papado na Itália.
- Renascimento cultural: a inserção de um segmento cultural antropocêntrico, de um espírito de crítica e reflexão e de uma linha comportamental marcada pelo individualismo, proporcionaram o fim da escolástica e, com isso, alavancaram a Reforma Protestante.
- Declínio da Igreja: a comercialização de indulgências e de ofícios eclesiásticos colocou a Igreja em foco de críticas execráveis da maior parte de seus fiéis. Diante disso, em cada país, complementou-se a inserção de componentes ou fatores específicos no surgimento da reforma.
A Reforma Protestante na Alemanha, cujo expoente e mentor
foi o monge Martinho Lutero
O denominado Santo Império Romano – Germânico possuía a multiplicidade de principados, onde as diretrizes no âmbito político real era implementada pelo segmento detentor de prestígio, que era a grande nobreza. Logo, a dinastia dos Habsburgos (imperadores do Sacro Império) precisava do esteio do papa, a fim de sustentarem sua corroída e fragilizada hegemonia sobre os principados. Tudo isso, pelo fato de que uma expressiva quantidade de terras do Sacro Império tinha como proprietários as instituições eclesiásticas. Além do mais, o principal fluxo comercial de indulgências se encontrava na Alemanha, ou seja, era nessa região que a Instituição Eclesiástica lograva as suas opulentas rendas.
Mesmo diante de susceptíveis contradições entre as várias classes sociais, havia uma proposição sumária entre todos os segmentos sociais, a saber: todos estavam concordando em execrar veementemente as prevaricações praticadas pelo clero e sua estrutura vertical e hierarquizante. É notório que a nobreza almejava, vorazmente, apropriar-se das terras da Igreja e a burguesia pleiteava um paradigma clerical menos intransigente e também ansiava em refutar o fluir de capitais para Roma.
A comercialização da indulgência motivou um processo de aceleração na deflagração da Reforma Protestante na Alemanha. O Papa Leão X, demandando de recursos financeiros para a construção da Basílica de São Pedro, incumbiu o monge Tetzel de comercializar indulgências na Alemanha. Lutero, um monge agostiniano, manifestou-se contrário a essa postura papal. Então, afixou na porta da Igreja de Wittenberg, onde exercia a função de sacerdote e pregador, um documento que ficou conhecido como as 95 Teses de Lutero.
O documento agrega uma diversidade de críticas incisivas à Igreja Católica, fundamentalmente no que tangia a comercialização de indulgências.
Assim, Lutero recebeu ameaças de excomunhão e heresia pelo Papa Leão X, caso não se redimisse das alegações preconizadas anteriormente. Diante da recusa de Lutero, o Papa determinou a excomunhão, convocando-o a participar de uma assembléia, onde seria julgado pelas leis canônicas da Igreja. Esses acontecimentos fizeram com que o imperador Carlos V considerasse Lutero um fora da lei, das regras estimadas e defendidas pela Igreja Católica. Todavia, passado o perigo da perseguição pelos soldados do rei, Lutero reiniciou a sua labuta e o edital nunca foi colocado em implantação. A partir deste momento, a reforma aludida por ele difundiu-se amplamente pela Alemanha.
Princípios basilares das diretrizes esculpidas por Lutero
A religião luterana tinha um traço de cunho nacional, devido à ruptura com o papado, colocando pastores dessa Igreja sob a direção dos príncipes alemães. A Igreja Luterana sintetizou os ritos religiosos, excluindo dois sacramentos: o batismo e a eucaristia. Nas idéias delineadas por Lutero, a confissão passava a ser feita diretamente com Deus, instituídas pelo próprio Cristo. Portanto, todo homem era considerado apto a interpretar livremente a Bíblia.
A reforma luterana apresentou uma postura moderada que concedeu benefícios para a nobreza e a grande burguesia. De um lado, a nascente burguesia foi beneficiada na medida em que se desvencilhou das onerosas obrigações financeiras com a Igreja Católica, cujas rendas destinadas para esta instituição religiosa permaneciam na Alemanha.
O princípio fundamental da religião é da justificação pela fé. E esse constituía, segundo a ótica de Lutero, como de suma importância para o cristão. Em poucas palavras, ele concedia um significativo realce à fé do que em relação às boas obras praticadas pelos fiéis, como um meio de obter o êxito da salvação. Assim, o fiel, para obter os arroubos do paraíso, não poderia se abarcar numa vida de abstinência e sim de acordo com a vontade de Deus. Com o desenrolar dos anos no convento e, posteriormente, exercendo a função de professor de Teologia na Universidade de Wittenberg, o monge agostiniano Lutero foi aperfeiçoando sua perspectiva no que diz respeito à salvação do homem e o pecado.
A Reforma Protestante na Suíça, cujo expoente e mentor foi João Calvino
Na Suíça, havia uma diversidade de cidades-república como Zurique, Basiléia, Berna e Genebra, que representavam precípuas áreas no setor comercial. As diretrizes, no tocante a administração e implementação do poder nessas áreas, convergiam-se nas mãos de um segmento social nascente (a burguesia), embora, houvesse o predomínio nesses centros de uma moral econômico-religiosa que cerceava o desenvolvimento satisfatório dessa burguesia. Esse segmento social dependia da inserção de uma nova nomenclatura moral, econômica e religiosa que legitimasse o granjear do lucro através das atividades comerciais e da espoliação do labor assalariado. A reforma suíça atendeu a essa postulação de adequação da vertente religiosa aos aspectos de vida preconizado pela burguesia.
- O embrião da reforma nessa região foi Ulrich Zwingli que, em 1519, se consolidou como um ferrenho apologista de uma ruptura com a Igreja Católica, cujo objetivo era o estabelecimento de uma religião mais pura.
- Em 1529, devido a posturas antagônicas dos cantões florestais, a nova fé deflagrou um conflito civil que culminou com o fim das forças de Zwingli e a morte do seu líder.
- Mesmo assim, a primeira seita estendeu-se dos cantões no norte de Genebra, ond as diretrizes econômicas estavam nas mãos da burguesia. Mas as diretrizes políticas pertenciam à nobreza feudal, que era leiga e eclesiástica, cujos representantes máximos eram representados pelo conde de Sabóia e pelo bispo local. A moral predominante era a medieval-religiosa, que não atendia às demandas da burguesia.
- Após o resultado positivo dessa sublevação, João Calvino (1509-1564) iniciou sua ministração, em Genebra.
- As premissas básicas do novo segmento religioso constituíam a ética correspondente à prática econômica da burguesia, isto é, fomentava-se o lucro e não se execrava a usura. Logo, vemos uma teoria ética e econômica convergidas no desenvolvimento e emancipação de seus interesses.
Princípios basilares das diretrizes esculpidas por Calvino
Uma premissa fundamental do calvinismo é a ênfase moral do trabalho e da rentabilidade, resultando numa conjuntura social de bem-estar social e econômico. Essa proposição de trabalho e lucro era analisada como marca propícia de Deus sobre a salvação do indivíduo. No que se refere aos princípios religiosos, aludiam à prática econômica de cunho burguês, fornecendo a esse segmento social nascente os parâmetros da oposição contra o feudalismo, que estava concatenado com a dimensão católica. A reforma tecida por Calvino introduziu normas prementes em sua estrutura religiosa. Todos aqueles considerados hereges, anátemas e aviltantes aos princípios defendidos por Calvino, poderiam ser excomungados, deserdados ou condenados à fogueira, ou seja, pondo fim à dignidade humana.
A ortodoxia religiosa calvinista apresentava um esqueleto rígido. Do mesmo modo, a sua moral apresentou os mesmos traços de rigidez. Por isso, Calvino ficou conhecido como o Papa Protestante e Genebra, como a Roma do protestantismo. Na sua obra, Calvino formou o princípio basilar de sua doutrina – a predestinação, em que o homem já está predestinado, antes de nascer, à salvação ou ao inferno e esse destino não pode ser mudado. Os desígnios de Deus são impermeáveis. Na análise de Calvino, o homem obtém êxito em transformar esse mundo e através do seu trabalho pode-se considerar como um eleito do Senhor.
A Reforma Protestante na Inglaterra, cujo principal
colaborador foi Henrique VIII
A reforma industrial estava acelerada na Inglaterra. Em concomitância, no âmbito do campo e das funções agrícolas, a nascente nobreza inglesa protegia suas propriedades, levando a um processo de migração de um contingente expressivo de camponeses para os espaços urbanos. O fenômeno dos cercamentos acarretou a vinda massiva dos trabalhadores no setor rural para as cidades, que tinham um deficiente sistema habitacional, de saúde, segurança e toda uma gama de problemas. No âmbito político, com a dinastia Tudor, constituía-se o absolutismo. A Igreja Católica também exercia uma forma peculiar de absolutismo, pois detinha grandes espaços de propriedades de terras e monopolizava a comercialização da graça divina.
O poder dessa instituição tornava-se um empecilho para a consolidação do absolutismo político. Ao mesmo tempo, travava uma competição acentuada com os grandes proprietários rurais leigos. Entretanto, a derrocada da Igreja, cuja autoridade eclesiástica durante a Idade Média era equivalente com a autoridade real, era o desejo compartilhado dos monarcas e dos nobres feudais. Assim, os proprietários rurais capitalistas, a nobreza inglesa e Henrique VIII uniram-se para derrotar a Igreja Romana. Com o fim da Igreja Católica, tais segmentos sociais, beneficiados econômico-política e juridicamente, passaram a ser a base primordial da Igreja Anglicana.
Conclusão
A Reforma Protestante suscitou um legado histórico e, sem dúvidas, desencadeou uma permeabilidade relevante no processo de transformação histórica, inserindo um leque de diretrizes que não esteve adstrita ao teor teológico. Isso perpetrou a conquista de novos paradigmas de relacionamento do ser humano com as questões econômico-político-social do período, cujo absolutismo florescia, enquanto o poder de cunho jurídico, legislativo, administrativo e bélico, outrora fragmentado, se convergia em um pólo específico – o Soberano. Logo, a Reforma Protestante participa, in conteste, da transição da manufatura para a industrialização. Mediante tudo isso, é possível afirmar que foi uma reforma de renascimento espiritual.
Pr. Joiadas Soares de Souza
10/06/08
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