Os Intérpretes da Bíblia na Pós-modernidade
Capítulo 15
Anteriormente vimos que o período Moderno nasceu com o Iluminismo, no século 18, movimento considerado como a Idade da Razão, pois dava ênfase à capacidade racional do ser humano. E o impacto que causou na interpretação bíblica foi que, apesar de crerem em Deus, os intérpretes da época tentavam negar Sua intervenção na história humana.
No Iluminismo o conhecimento era exato (racional) e também objetivo, intensificando a liberdade e defendendo a autonomia do “EU”. Porém, tempos depois a modernidade começa a ser atacada, primeiro por Nietzsche no fim do século 19. E a partir da década de 70 é que se consolidou o total desmantelamento do movimento iluminista.
Os intérpretes da pós-modernidade chegaram à conclusão de que não existem verdades absolutas; não é possível fazer uma análise totalmente neutra, isenta de preconceitos e pressupostos; e que cada pessoa analisa as coisas de acordo com o que pensa e crê. Por ter característica inclusivista, o pós-modernismo abriu espaço para as hermenêuticas das minorias, como a feminista, da raça negra etc.
O capítulo 15 do livro “A Bíblia e seus Intérpretes” apresenta as várias hermenêuticas surgidas em meados do século 20, a partir do trabalho de Schleiermacher, Bultmann, Saussure, Gadamer e Derrida. Os novos conceitos trazidos pela pós-modernidade refletiram na hermenêutica bíblica e produziram diversos tipos novos de interpretações e abordagem das Escrituras como veremos a seguir.
Ao contrário do que ocorreu na Modernidade onde a hermenêutica era diacrônica, ou seja, vasculhava o passado com o objetivo de entender o processo histórico da formação dos textos bíblicos para somente depois entender o sentido do texto. Na Pós-Modernidade a hermenêutica desenvolvida por esses intérpretes tornou-se sincrônica, termo que teve início com o trabalho de Saussure.
A análise sincrônica procura entender o texto à luz de si mesmo e da interação deste com o leitor. Neste caso, o intérprete sincrônico se concentra na presença literária do texto como um todo e deixa de se preocupar com questões do tipo: quem foi o autor ou qual o processo histórico que levou à formação do texto. Entretanto, observa-se que atualmente essas duas abordagens estão cada vez mais em convergência, segundo Berkhof.
Principais características dos dois movimentos:
Modernidade |
Pós - Modernidade |
Diacrônica |
Sincrônica |
Associava a verdade à racionalidade |
Questiona o conceito de verdade universal |
Acreditava na verdade universal/única |
Verdade é relativa e depende do contexto em que vivemos; Há pluralidade de verdades |
Individualista |
Inclusivista |
Era industrial (produção de bens) |
Era da informação |
Principais hermenêuticas da pós-modernidade
Estruturalismo
Como método de análise e interpretação de textos, o Estruturalismo surgiu com a publicação, em 1916, do Curso de Lingüística Geral de Ferdinand Saussure. Sua metodologia aborda práticas culturais, linguagem humana e textos literários com o intuito de analisar as relações entre as menores partes desses sistemas.
No século 19 havia uma compreensão histórica da lingüística (atacada por Saussure) que abordava o estudo da linguagem enfatizando o comportamento lingüístico real do discurso humano (chamada por ele de parole = fala); e que rastreava o desenvolvimento das palavras e expressões ao longo do tempo, investigando as influências da geografia, deslocamentos populacionais etc., que poderiam afetar o comportamento lingüístico.
Mas Saussure se concentra na abordagem não-histórica que vê a linguagem como um sistema interno coerente (que ele chama de langue = língua). Para Saussure, a linguagem é como uma obra musical e para compreender a sinfonia precisamos ter em vista a obra completa e não a performance individual dos músicos.
Com a linguagem ocorre o mesmo, devemos concebê-la sincronicamente como uma rede de sons e significados inter-relacionados. Ele trata a linguagem como um todo, daí o nome estruturalismo, ao contrário do Iluminismo em que a abordagem do estudo da linguagem consistia em que o sujeito era estudado em partes. Para Saussure a linguagem é um fenômeno social e por isso o sistema de signos lingüísticos é determinado por convenção social.
Estruturalismo bíblico
O estruturalismo foi um dos primeiros métodos sincrônicos de exegese a causar impacto nos estudos bíblicos acadêmicos, em 1969, quando um grupo de estudiosos franceses decidiu aplicar os princípios do estruturalismo à interpretação bíblica. Mas por volta de 1980 os estruturalistas já tinham dúvidas quanto a sua validade por não ter produzido resultados satisfatórios como leitura de textos.
As principais críticas ao estruturalismo são:
- Negação da liberdade do indivíduo: ao enfatizar que esse código lingüístico universal determina o modo pelo qual as pessoas entendem a realidade, o estruturalismo acaba negando a liberdade do indivíduo e a sua participação no entendimento. O leitor é visto como “escravizado” aos sentidos determinados pela estrutura (langue=língua) e não sobra espaço para interpretações originais.
- Negação da História: o estruturalismo nega a importância da História no processo de formação de idéias, pois se o sentido é determinado por um código universal e fixo na mente humana, significa que não pode haver progresso e melhoramento no entendimento das pessoas.
Crítica Narrativa/ Nova Crítica Literária
Essa crítica é essencialmente sincrônica e preocupa-se com os aspectos literários da narrativa bíblica. Focaliza-se não no contexto ou na história do texto, mas na forma como os autores bíblicos narram a história. Abordam os relatos bíblicos como histórias sem, necessariamente, entrar na questão se os fatos narrados aconteceram ou não.
Principais características:
- Auto-suficiência do texto: na crítica narrativa a obra literária é auto-suficiente, o texto é autônomo e independente de seu autor. O sentido do texto está nele mesmo.
- Negação da intenção do autor: devido à autonomia do texto, a intenção do autor e o contexto histórico não têm qualquer importância para o intérprete. O texto sobrevive independente do autor e de sua intenção original.
- Autor como narrador: o autor é visto como narrador, cria personagens e enredos visando provocar reações emocionais no leitor.
- Busca da forma como efeito: usa-se artifícios retóricos (ironia, repetição, omissão de fatos, comentários) como efeito independente da intenção do autor. Por isso o intérprete deve estudar as formas literárias do texto com cuidado. Por exemplo: em 1 Co 4.8-10, Paulo chama os Coríntios de ricos e fartos, sábios e fortes. Mas é uma ironia, pois a situação deles era o contrário e Paulo queria, com isso, provocar neles uma reação de vergonha pela atitude deles em julgarem-se superiores aos apóstolos.
Hermenêutica Reader Response (reação do autor)
Gadamer desenvolveu diversos tipos de abordagens dentro dos estudos bíblicos, sendo que a Reader Response (reação do autor) foi uma das mais importantes, pois enfatizava o envolvimento do leitor na produção e definição do sentido de um texto.
Ela surgiu na década de 60 enfatizando a relação entre o leitor e o texto e foi uma reação ao estruturalismo e à nova crítica literária, que ensinavam a autonomia do texto. Existem diversas variações da Reader Response, mas todas lêem o texto a partir de uma agenda definida, que pode ser ideológica ou política.
Principais variações desta hermenêutica:
- Teologia da Libertação: defende que o texto bíblico deve ser lido a partir das necessidades sócio-econômicas do mundo em que os leitores vivem. Há um conceito de que os pobres e oprimidos trazem ao texto sua experiência de opressão e pobreza, cuja compreensão do texto se dará sob a ótica social. Por exemplo: mulheres oprimidas e reprimidas pelo homem vão interpretar a Bíblia e terão conclusões diferentes das dos homens. Portanto, vivemos numa sociedade pluralista e inclusivista e cada leitura é válida e deve ser ouvida.
- Hermenêutica Feminista: de acordo com o conceito de Gadamer, existem várias ramificações dentro do feminismo que empregam diferentes aspectos das idéias feministas em sua abordagem ao texto bíblico. A Bíblia, por exemplo, tem sido veículo da dominação machista ao longo dos séculos, oprimindo as mulheres e deixando marcas do machismo patriarcal e introduzindo elementos masculinos no conceito de religião. As intérpretes feministas têm o objetivo de libertar as mulheres dessa opressão. E alguns teoristas desconstrucionistas têm procurado eliminar o conceito “homem e mulher” das traduções da Bíblia, argumentando que as referências masculinas a Deus são parte de uma tentativa de oprimir as mulheres. No Brasil, a leitura da Bíblia sob a ótica feminista tem encontrado resguardo em alguns centros acadêmicos ecumênicos, tanto católicos quanto protestantes.
- Desconstrucionismo: Jacques Derrida foi defensor da hermenêutica do desconstrucionismo, que considera o sentido uma construção social. Segundo ele, não há uma única verdadeira interpretação de um texto, mas muitas interpretações que também são válidas. O desconstrucionismo parte do princípio de que todo texto se auto-destrói, já que representa os interesses da dominação de alguns grupos. Para Derrida, as sociedades são opressoras e conseqüentemente a linguagem é usada para manter a opressão, por isso o desconstrucionismo procura peneirar o texto em busca de verdades arrogantes e tirânicas. O desconstrucionismo se tornou uma ferramenta hermenêutica de grupos minoritários que denunciam a Bíblia e o Cristianismo como propagadores e mantenedores do sexismo, da homofobia e opressão econômica. Como hermenêutica, o desconstrucionismo é radicalmente irreconciliável com o conceito de verdade divina absoluta.
- Hermenêutica da Suspeita: O filósofo francês protestante Paul Ricouer teve influência de Marx, Nietzsche e Freud, considerados mestres da suspeita. Para eles a religião era usada como máscara para ocultar interesses não declarados nos textos sagrados. Com isso, a suspeita é fundamental para se chegar à compreensão do verdadeiro propósito do texto.
- Marx concluiu que o propósito da religião era servir de ópio para o povo;
- Nietzsche: para ele esse propósito era justificar vícios e fraquezas das pessoas; e
- Freud concluiu que a religião procurava oferecer conforto criando o conceito de um Deus que é pai. Ricouer acreditava que foi a partir de suspeitas que eles descobriram a realidade que havia por detrás da máscara textual religiosa. Portanto, a suspeita nos ajuda a compreender o verdadeiro propósito do texto.
Conclusão
A partir das características das hermenêuticas da pós-modernidade, observa-se que seus intérpretes compartilhavam:
- da rejeição autoral;
- da pluralidade de sentidos em um texto;
- da participação do ambiente do leitor na produção desses sentidos.
As hermenêuticas nascidas na pós-modernidade apresentam alguns aspectos positivos como:
- a idéia de que ninguém lê texto bíblico sem pressupostos ou pré-compreensões;
- a sensibilidade em relação ao ambiente e a situação do leitor e a influência que eles têm na compreensão do texto bíblico, ou seja, existe um impacto da cultura e da linguagem na leitura do texto bíblico.
Os movimentos filosóficos e lingüísticos que ocorrem no mundo influenciam a educação teológica da Igreja evangélica e o motivo disso é que os intérpretes evangélicos entendem que Deus age também no mundo secular, permitindo que os não cristãos descubram as maravilhas existentes no mundo que Ele criou.
Para que se tenha uma hermenêutica sadia é importante que se tenha compromisso e fidelidade à Palavra de Deus e conhecimento da história da Igreja. |